Também nas bicicletas quanto maior é a nau maior maior é a tormenta, dois meses depois do PBP e o andar de bicicleta, treinar como agora se diz, divide-se no antes PBP e no depois PBP.
A obsessão de pedalar os 1200 kms e de fazer todo o caminho das pedras, fazer a festa, lançar os foguetes a apanhar as canas é desgastante, pouco recomendável e muito satisfatório para além de andar de bicicleta, afinal pedalar acaba por ser a parte mais irrelevante do processo. Comecei o caminho em 2008 sozinho e 4 anos depois fazia a festa com mais uns amigos que encontrei pelo caminho. Bom!
No caminho o que mais me acabou para atrair na mística dos randonneurs é possibilidade não competir e ainda assim propor-me a fazer algo… digamos… que pouco comum e satisfatório, requer alguma determinação, planeamento, uma boa dose de sorte, alguma tolerância ao risco e tempo.
Sorte porque sinto que cada que me dedico a estas distâncias virtuais perco uma vida e como não sei se tenho 7, é bom reflectir e pensar se o santo gral vale o risco, acho que já por aqui devo ter escrito, que isto não faz bem à saúde, pelo que não há-de ser por aqui alguém vai ficar convencido como é espectacular pedalar 1200 kms.
Uma das reflexões que tenho feito é tentar descobrir qual é a minha distância, não sei se a descobri mas descobri uma distância partir da qual é melhor ser compulsivamente internado.
Conheci muita gente parecida e gente muito diferente que pedala 1200 kms como se fosse comprar pão… gente estranha. O que diferencia todos estes seres …. os dos 200, dos 400, dos 600, dos 1200 ou mesmo dos 5000 kms é apenas um aspecto “o nível de respeito que se tem pelos limites do corpo e mente”… não tem nada a ver com treino, ou andar de bicicleta como se dizia antigamente.
Depois temos a categoria mais perigosa de todas, aqueles que acham que não temos limites. Pedalei com um moço que faz a RAAM em 9 dias a solo e pareceu-me um tipo normal. Será? Tenho as minhas dúvidas. Com uma moça que 3 dias depois de ter feito o PBP foi até Londres e fez um pequeno triatlo que consistia em correr até ao canal da mancha, nada-lo e pedalar da costa francesa até Paris.
O moral da história é que os limites do corpo e da mente dependem da imaginação humana e a diferença entre “uma má ideia” e “algo” é fazer qualquer coisa com a ideia… e há nesse mundo fora gente muito concretizadora!
Cardiologistas, ortopedistas… e outras gentes “aoborrecidas” poderão não concordar exactamente epílogo.



